Marçal de Segunda | Agora que eu sei

A ignorância é uma dádiva, eles disseram. Não sei até que ponto isso é verdade ou não, mas as coisas sempre ficam mais tensas para mim quando descubro como isso ou aquilo funciona.

Agora que eu sei que esse remédio para dores de cabeça em excesso pode causar problemas no fígado, por exemplo, comecei a sentir uma dor estranha que me fez correr ao médico e fazer um exame, que não deu em nada. Ainda bem.

Quando descobri a tal da intolerância à lactose, passei a ficar mal só de olhar para o queijo derretendo na pizza de sexta-feira à noite, uma tradição antiga aqui de casa (e de outras, imagino). Fui pesquisar sobre meu defeito de fabricação na internet e vi gente dizendo que a mussarela, a muçarela e a mozzarela não são feitas com tanto leite assim. Sei lá eu se isso é verdade, mas a partir desse dia mágico passei a ter menos problemas.

Sentia dores fortes nas canelas depois de correr, até que uma professora de Educação Física me indicou não inclinar muito o corpo para frente em meus dias de maratonista amador do quarteirão. Ficava com as costas eretas e me cansava como todo sedentário pagador de impostos, mas as pernas passaram a doer menos. Até o dia em que me alertaram estar parecendo um avestruz em fuga. As canelas voltaram a latejar antes que eu me rendesse ao sedentarismo pela milésima vez.

muçarela-marçal

Disseram que usar boné não influenciava tanto assim na calvície quando já era tarde para mim. Avisaram dos malefícios do excesso de açúcar no refrigerante há muito tempo, sorte a minha que nunca fui dos seus maiores fãs. Ainda assim, quando bebo um copo apresso minha ida ao banheiro na esperança vã de expelir embriões de diabetes pela urina.

Não faço a mínima ideia do que causa essas loucuras, como meus temores de um infarto veloz se a carne estiver muito salgada. Corro para tomar um copo d’água e assassinar um projeto de pedra nos meus rins.

Agora que eu sei da possibilidade de um rato ter entrado aqui em casa em algum vacilo de quem não fechou as portas, não consigo dormir direito. Todo barulho da porta lá embaixo abrindo me faz despertar, se alguém mexer em uma sacola já penso em uma invasão de ratazanas alienígenas ou mutantes nos escravizando em gaiolas gigantes. Ratos querem dominar o mundo, ainda hão de me ouvir.

Preciso parar de pesquisar, pensar, dar ouvido ao que as pessoas falam sobre as plantas, os medicamentos, os relacionamentos e as cervejas. Essas são mais importantes. Depois que alguém me disse ter mais dores de cabeça ao entornar goles daquela marca cujas latinhas são amarelas, minhas ressacas pioraram violentamente.

Placebo deveria ser meu sobrenome. Ainda assim, não largo as pesquisas, as conversas, as palavras, as informações.

Ignorância é um presente de gregos, eu sorriria de forma protocolar sem abrir o pacote, mas deixaria no canto da casa depois que a festa terminasse. Só não a jogaria fora com receio de uma visita inesperada de quem pensasse nela como um regalo para mim.

Prefiro tentar saber de tudo, sem ligar para minhas consequências paranoicas.

  • Ana Patty

    Em algumas afirmacoes parecia falar da Patty! — Ufa!! SOU LOUCA ANSIOSA MAS NAO ESTOU SOZINHA!!! RSSSS…