Anarquia

Série mensal aposta em em super-heróis

Primeiro número da série apresenta trama, mas ao mesmo tempo mostra que gênero tem futuro e possibilidades são infinitas

Não é exagero dizer que o Brasil já tentou um monte de vezes e não conseguiu. Mas também não é precipitado apontar que, talvez, Anarquia, HQ escrita por Emílio Baraçal, tenha conseguido.

O desejo em questão não seria apenas fazer uma história em quadrinhos brasileira, mas focar seus esforços em criar uma sobre o gênero que mais vende no mundo: os super-heróis. Quem é mais velho até lembra de uma ou outra tentativa frustrada durante os anos 90, mas talvez esse mesmo público também seja o primeiro a apontar que isso pode estar mudando.

A questão principal acaba mesmo sendo os quadrinhos digitais, uma plataforma que facilita, mas ainda assim sofre com uma certo incômodo, principalmente quando o assunto são leitores de quadrinhos. Anarquia então se aproveita disso e promete seguir um esquema onde será lançada tanto online como (em demanda) no formato físico.

A iniciativa nasceu com o mesmo Baraçal e a ideia é expandir não só esse gibi, mas uma série de outros, tudo dentro da Supernova Produções. A editora então se especializaria em trazer para o Brasil o gênero de super-heróis, mas de um modo que o próprio Baraçal aponta como uma fuga dos clichês tradicionais e uma nova visão para esses lugares comuns. O que por si só já é uma baita novidade em termos de quadrinhos nacionais, que poucas vezes conseguiu tratar “seus” super-heróis como um sub-produto dentro de um gênero.

E isso dito sem diminuir em nada nem o sub-produto e muito menos o gênero. O que faltava era se livrar de uma certa obrigatoriedade de fugir dos quadrinhos americanos e, diante disso, sem esse peso, encontra a liberdade criativa. Principalmente, por fugir de algo tão estabelecido em soar pedante e até burro. O interessante então é fazer o melhor dentro das ferramentas que já lhe foram dadas, e Anarquia consegue fazer isso direitinho.

Anarquia não foge de suas referências e raízes dos quadrinhos americanos, principalmente quando o assunto é o ritmo acelerado e o esmero estético. O que se segue página atrás de página é uma identidade visual que não permite que o leitor se disperse pela história. A arte de Eduardo Vienna e Genis Holland, ainda que se permitam ser diferentes, parecem ser resultado de um esforço estético onde ambos estilos se aproximam. Ainda que existam diferenças, em termos de formatos, sombreados e detalhes, é tudo tão pequeno que é improvável que olhos menos minuciosos percebam (diferenças que ainda podem ser creditadas às mudanças de arte-finalistas).

Anarquia Imagem

De qualquer jeito, o resultado visual final é acima da média, com uma disposição dos quadrinhos que mostra um cuidado ainda maior e, principalmente, a destreza de estar trabalhando com um material que todos envolvidos parecem ter afinidade. Não só o formato (que os mais “antigos” sempre se referiram como o famoso “formato americano”, de 17cmX26cm), mas também o número de páginas e o texto.

A ideia da Supernova então é ser mensal, primeiro na internet e depois em sua versão física, com cada gibi contanto com 24 páginas. A proposta inicial ainda parece ser a de explorar a origem de cada personagem nas primeiras oito edições e, após isso, ter arcos de mais ou menos quatro. E Anarquia mostra justamente isso.

Ainda que pouco aconteça nessa primeira edição, Baraçal posiciona muito bem o cenário onde essa jovem, Adriana Katsumoto, acorda no meio da rua depois de uma de seus “apagões”. A partir disso, a protagonista acaba sendo levada, por uma misteriosa mensagem em seu computador, a colocar em dúvida, não só seu passado, como o passado de seu pai. Um caminho que passa por teorias de conspiração, um chip implantado em seu cérebro, um cara misterioso que procura a ajudar e a possibilidade de que ela seja apenas um peão no meio de um guerra maior ainda.

É claro que por se tratar de uma primeira edição e de um ambicioso projeto de oito contando essa origem, Anarquia até sofre um pouco de falta de ação, assim como Baraçal em certos momentos acaba se deixando ser um pouco prolixo demais quando o assunto são os pensamentos de sua personagem. Delizes que nem de perto prejudicam a obra, e muito provavelmente serão corrigidos no material que vem a seguir, com mais ação e uma interação maior entre os personagens. Além de, é claro, a entrada em cena da tal super-heroína Anarquia.

De qualquer jeito, Baraçal e sua Super Nova, dão vida a Anarquia e também a um sopro de originalidade dentro dos quadrinhos nacional. Talvez não de originalidade, afinal é um gibi de super-herói, mas sim de algo mais importante ainda que “originalidade”: Diversão.

Por isso não deixem de conferir o primeiro número aqui. E procurem pela página no Facebook da revista e da Super Nova Produções.

Anarquia Book Cover Anarquia
idem
Emílio Baraçal
Super Nova Produções
24

No primeiro número da HQ, Adriana Katsumoto é uma jovem que acorda de um de seus apagões e acaba descobrindo uma teoria de conspiração que pode mudar seu passado e dar um novo objetivo para seu futuro.