Aurora | Astro sai das novelas e se dá bem em estreia nas HQs

Nem toda obra, seja cinema, literatura ou quadrinhos precisa ser um clássico enorme que irá mudar o gênero, é preciso ter humildade as vezes de só contar uma história. Mas é preciso mais ainda saber que são essa “histórias menores” que movem a indústria e permitem a existência dos tais clássicos. Aurora primeira HQ escrita por Felipe Folgosi é um exemplo disso, dessa capacidade de ser simples, bem feita e que surge para ser menor, mas com a capacidade de ser contundente.

Essa contundência vem com um cuidado narrativo que marca a obra. Um roteiro com tudo no lugar, com personagem que funcionam e uma trama rica que entrega exatamente o que se propõe: um suspense que mistura fantasia com ação e enverada até para o universo dos super-heróis com a segurança que o gênero permite. Melhor ainda, dialoga com todos esses lados populares sem se perder em clichês pobres.

Sim, os lugares comuns estão lá, principalmente na estrutura narrativa e nas reviravoltas, mas usado de um modo equilibrado e que se presta a, antes de qualquer coisa, mover essa história.

Nela, um grupo de pescadores é pego em meio a uma misteriosa tempestade que desperta o interesse não só das autoridades climáticas, como também de uma obscura sociedade. O problema é que em meio a essa tormenta, Rafa, um dos pescadores é atingido por uma esquista luz e um blackout toma conta de tudo.

Rafa então aos poucos começa a descobrir pequenas marcas em sua pele, que se transformam em uma espécie de tumor que o colocam em coma, mas as descobertas que vêm na sequência colocam não só Rafa em perigo, como todos seus amigos e família, já que ele desperta com poderes incríveis e se tornar o alvo desse “sociedade secreta/governo” que busca o novo exemplar da evolução do ser humano.

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É lógico que Aurora ainda tem um pouco mais de detalhes e reviravoltas, mas em linhas gerais é a velha história da gênese do super-herói que acaba sendo perseguido pelas autoridade. E isso não é ruim, já que bem trabalhado nunca se cansa de entregar boas histórias em todas mídias

Folgosi, além de demonstrar que sabe em que terreno está pisando, ainda demonstra um conhecimento técnico maior que a média, principalmente em se tratando do roteiristas nacionais da atualidade, que quase sempre metem os pés pelas mãos ao tentarem fazer algo maior que suas capacidades. Aurora ainda demonstra também que o escritor gastou um tempo precioso criando esse mundo, se cercando de informações técnicas, mapas, fichas de personagens e termos específicos, o que ajuda o leitor a se “perder” mais ainda dentro desse mundo com cara de real.

Para completar, a arte de Leno Carvalho mantém o clima de veracidade e ajuda na ação, com um desenhos que tem o pé no real, mas não esquece do fantasioso e sempre opta por decisões estéticas firmes e que dão agilidade à HQ.

E é fácil perceber isso pela facilidade com que você passa por Aurora, uma experiência que parece se propor a ser isso: nada mais que um thriller de ficção científica como vários outros. E se ela não parece ter pretensões de mudar a industria de quadrinhos isso nunca deve ser um defeito da obra, mas sim das expectativas que se criam. Delas e da continua incapacidade do público nacional (especializado ou não) renegar o mediano quando vem de seu próprio jardim, mas celebrar a mediocridade quando ela vem de fora de nossas fronteiras.

O crítico leu um exemplar cedido pela Tatoomics
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Aurora Book Cover Aurora
Felipe Folgosi
Instituto dos Quadrinhos
2015
116

Um pescador é pego em um misteriosa tempestade e acaba descobrindo ter se tornado um ser evoluído e com poderes que colocam em risco ele e sua família, já que um braço mais misterioso ainda do governo fará de tudo para capturá-lo. A HQ é o primeiro trabalho do ator Felipe Folgoni na dos quadrinhos.