Marçal de Segunda | De carona, sem motor

Um dos mais de 50 motivos que me fazem ter preguiça e desgosto quase infinitos por dirigir é a impossibilidade de observar com atenção o que ocorre ao meu redor. Preciso estar focado no trânsito à minha frente e nos retrovisores indispensáveis.

Foi quando voltava para casa e girei a chave em cima da balsa, ainda parada, que ao meu lado esquerdo a vi correndo atrás dele. Era o impulso para pular no cano da bicicleta já em movimento, naquela rampinha traiçoeira que nos tira do mar e coloca de volta à terra.

O amor deve estar ali, pensei.

Tive a imensa vontade de parar ao lado do casal e oferecer uma carona. O pagamento não lhes custaria caro, era só contar a história de como se conheceram, de onde vinham e para onde iriam – mesmo que essa pergunta não tenha uma resposta definitiva nem pelos maiores gênios da História, mas tudo bem.

Era a mesma sensação que me toma quando vejo outro casal entrando no motel a pé ou também de bicicleta. Nesses tempos em que ter é um verbo mais fácil de conjugado do que ser e sentir, ali também há alguma forma de amor. Mesmo que perecível, parece ser mais sincero do que o daqueles que fazem de tudo para provar em festas e eventos que são um casal plenamente feliz, como se isso existisse.

Tenho pena de quem ri de tais situações. Algum complexo de superioridade de quem vê no dinheiro e nos veículos motorizados algum status infantil, não sei bem.

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Meu pai, por exemplo, pedalou quilômetros para ir trabalhar até pouco tempo atrás. Suas folclóricas bicicletas eram seguidas pelos três filhos em todos os lugares que íamos. Minha mãe parou de aceitar carona depois dos filhos, ele diz. Algum medo escondido, ela passou a preferir os ônibus. Mesmo nesses dias em que há um carro preto na garagem, o consumismo desenfreado não é convidado a entrar aqui em casa. A vida urbana é cara. Admirei mais suas caminhadas de casal do que as selfies apertadas entre bancos, volantes e câmbios de casais com sorriso de comercial de margarina nesses tempos tão virtuais de desesperança tão real.

A distração e encanto pela corrida, o impulso e o destino daqueles dois seguindo a esforçadas pedaladas. Só engatei a primeira e girei os motores depois de uma apressada buzina. Só se ouve buzinas onde há idiotas. Nesse caso, não era eu.

Passei alguns dias procurando em cada par de rodas movido a pernas em movimento giratório o rosto do casal da balsa. Aquele corpo de lado dela em cima do cano, se apoiando nos braços dele, que projetava todo o peso nos pedais, ganhando fôlego para avançar um pouco mais no caminho de volta para não sei onde.

Deve ser assim que o amor pede carona: despretensioso, enquanto uns e outros estão mais preocupados em buzinar para o motorista da frente, mesmo que sua acelerada não lhe faça ganhar mais do que 30 segundos de vantagem pelo caminho.

No meu caso, fico tão atento ao trânsito que não percebo alguém na beira da estrada com a mão balançando e o polegar sinalizando o desejo de ocupar o banco do passageiro. Quando no ônibus, durmo na hora em que podia oferecer o lugar para o amor, ou pelo menos segurar sua mochila.

Se estivesse de bicicleta, teria mais tempo para olhar ao redor.