Do outro lado do mundo | Rittes de Quinta #47

Apesar de o mundo ocidental já ter se acostumado com boa parte da cultura oriental, seja através de séries, desenhos animados ou mangás, a literatura produzida no Japão, China e parte da Ásia ainda não parece ter encontrado um caminho de sucesso por aqui. Poucos autores podem se dar ao luxo de serem reconhecidos neste lado debaixo do Equador como Haruki Murakami, Yukio Mishima e Mo Yan, por exemplo.

De todas, a literatura japonesa é, de longe, a que faz mais sucesso. Mesmo que tenha nascido sob influência da chinesa, bem mais antiga. Autores chineses são mais raros de aparecerem. Mo Yan só começou a ser publicado aqui depois de ter ganho o Nobel de Literatura de 2012. Mesmo assim, apenas Mudança (2013) e As Rãs (2015) podem ser encontrados. Sua obra mais polêmica, Peito Grande, Ancas Largas, proibida na China e, talvez, seu livro mais importante; ainda não foi editado no Brasil.

Mesmo assim, não faltam bons títulos para quem quer conhecer um pouco mais dos autores do outro lado do mundo. Além dos já citados, vão aqui algumas dicas de títulos e autores que podem ser encontrados em edições brasileiras:

Guerra de gueixasNagai Kafu (Estação Liberdade, 2016)
Uma das obras clássicas da literatura japonesa, publicada entre 1916 e 1917, causou furor por suas descrições (nada muito ousado para os padrões de hoje, mas chegou a ser censurada) e circulou durante muitos anos com partes suprimidas. Ao contar a história da jovem viúva Komayo nas casas de gueixas traça um fiel retrato de um Japão ainda perdido entre a tradição e a modernidade.

O livro do travesseiroSei Shonâgon (Ed. 34, 2013)
Escrito no séc. X por uma integrante da corte da imperatriz Teishi, o livro do travesseiro é a obra clássica mais conhecida da literatura japonesa. Talvez, por isso mesmo, seja o melhor retrato de toda delicadeza e sensibilidade poética dos japoneses. São cerca de 300 textos curtos que podem ser lidos separadamente e como se fossem lições filosóficas.

Yukio Mishima

Tetralogia “Mar da Fertilidade”, composta por Neve de primavera, Cavalo selvagem, Templo da aurora e Queda do anjo – Yukio Mishima (Benvirá, 2012 a 2015)
Obra maior de Mishima, os quatro volumes de “Mar da Fertilidade” contam mais de 70 anos da história de quatro gerações, assim como as mudanças pelas quais passa o Japão durante o mesmo período. Saga impressionante, também traduz toda a criatividade e qualidade da escrita de um dos maiores e mais coerentes escritores japoneses. Mishima se suicidou logo depois de encerrar esta tetralogia.

Declínio de um homemOsamu Dazai (Estação Liberdade, 2015)
Autor desaparecido prematuramente aos 38 anos, quando se suicidou junto com a mulher, Dazai causou grande impacto na literatura mundial, especialmente com esse livro que, desde que foi lançado em 1948, vendeu mais de 10 milhões de exemplares pelo mundo afora. Uma espécie de “jovem Werther” japonês, o personagem do livro é o depressivo Yozo, estudante provinciano que tenta sobreviver em Tóquio e que tem muito do alcoólatra e também depressivo Osamu Dazai.

E para não dizer que não citei nenhum autor contemporâneo, vão duas dicas, coincidentemente, dois autores chineses:

Yangsze Choo

A noiva fantasmaYangsze Choo (DarkSide, 2016)
Apesar de viver na Califórnia, a malaia Yangsze Choo consegue traduzir nesse seu livro de estreia todo o peso que tem a cultura da Ásia antiga, em especial a China e a Malásia. Numa história de amor que mistura fantasia e até alguns elementos de terror, Choo nos apresenta uma personagem bastante curiosa, mesmo que um pouco “avançada” para o contexto, Li Lan, que teria que se casar com um homem de família rica para salvar o pai da bancarrota. O problema é que o “noivo” já morreu.

O problema dos três corposCixin Liu (Suma de letras, 2016)
O chinês Liu Cixin (na grafia chinesa onde o sobrenome vem na frente do nome) é hoje um dos mais festejados autores de ficção científica fora do Ocidente. Inclusive, chegando a ser comparado com um dos três grandes nomes do gênero, Arthur C. Clarke (os outros dois são Isaac Asimov e Robert Heinlein). Enquanto a violência da Revolução Cultural descaracteriza a China, um grupo de astrofísicos resolve começar um projeto que envolve extraterrestres. Os reflexos podem estar numa real invasão do planeta Terra, 50 anos depois. Instigante e criativo, o romance foi vencedor do prestigiado prêmio Hugo de ficção científica.