Galisteu, a filha do Pelé e o gaúcho | Contracapa

Na segunda metade dos anos 90, eu me sentia incomodado na vida profissional. Queria escrever mais, aproximar Jornalismo e Literatura. Eu não enfrentava sobressaltos, pois já estava formado em Jornalismo, trabalhava em emissora de TV há uns cinco anos e pensava em pós-graduação. O caminho previsível para um profissional em início de carreira.

Aí apareceu o oásis. Agradeço até hoje por ter notado as árvores, a água de coco e a lagoa para aliviar o calor. Eu mal sabia, aliás, que empurrava pedra no deserto. No meu mundo possível, mal sabia que patinava na caixa de areia de quilômetros de extensão. Frutos que crescem na lavoura do acomodados.

O convite para escrever em um jornal chamado O Emissário veio do jornalista Alessandro Padin e do comunicador multitarefas Fábio Tatsubô. A publicação representou, em 24 anos de profissão, o que mais se aproximou do Jornalismo em termos cooperativos, a soma de liberdade criativa e trabalho coletivo.

Era um pequeno universo, escondido na balbúrdia do centro de São Vicente. As relações eram horizontais, a proposta do jornal envolvia escrever sobre assuntos que pouco ou nenhum espaço ganhavam na imprensa local. Um veículo que resistisse aos apelos comerciais, mas – acima de tudo – à velhice que acomete muitos jornalistas depois de anos de desilusão.

Meu papel seria escrever sobre livros. Uma novidade para meu ofício, mas a união entre o desejo de redigir (ou palpitar) sobre literatura e vício de ler todos os dias. Não eram críticas, função da qual fujo até hoje. Os textos seriam reflexões, convites para que o leitor pensasse ou se interessasse por uma obra, sem pressões das listas de best-sellers, sem as armadilhas do mercado.

O critério da escolha dos livros seria minha curiosidade. E a curiosidade me levou a experiências inesquecíveis e escolhas desastrosas e compatíveis com a pouca idade, mas cicatrizes na memória até hoje. Caso contrário, não faria este texto, neste site específico sobre livros. Continuo avesso a escrever críticas e ainda amo a liberdade de refletir sobre o assunto sem algemas.

A melhor experiência em O Emissário foi a entrevista com o escritor gaúcho Moacyr Scliar. Médico, ele foi um dos mais completos escritores brasileiros, com bom trânsito em vários gêneros literários. Resolvi entrevistá-lo por causa de um romance novo.

Imaginei a dificuldade diante de um escritor renomado que residia em Porto Alegre. Teria que passar por editora, assessoria de imprensa, staff do autor mais a dificuldade de achar um espaço na agenda dele.

Não me lembro como consegui o telefone da casa do Scliar. Entrei ansioso no quarto dos meus pais, onde faria o interurbano. Não se esqueça de que celulares tinham o tamanho de um caderno, a tarifa batia na estratosfera e poucas pessoas usavam o aparelho. Internet era discada e rede social representava roteiro de ficção científica.

Galisteu, a filha do Pelé e o gaúcho | Contracapa

Sentei-me na cama, peguei o telefone e fiz o interurbano. Uma mulher atendeu e, diante da minha pergunta, foi direta: “Espere aí que vou chamar! Seo Moacyrrrrr.” O escritor atendeu segundos depois. Não marcou hora ou fez cerimônia, depois da minha identificação, usando o nome do jornal do qual ele nunca tinha ouvido falar. Contextualizei a publicação e ouvi: “quer gravar a entrevista agora?”

Em uma hora de uma conversa com aroma, gosto e corpo de aula, mal me dei conta de que estourava o preço da conta telefônica. Poderia me entender com meu pai. Meu argumento, que nunca saiu da hipótese, consistiria na importância do Jornalismo, a matéria exclusiva etc, etc…

Depois, o segundo problema: como condensar a sabedoria do médico-escritor em uma página de jornal? Foi um dos textos sobre livros que lapidei com mais prazer.

Escrever para O Emissário também me levou ao extremo oposto. Confesso que não me lembro dos motivos – desconfio novamente de curiosidade juvenil -, mas escrevi sobre dois livros dos quais me arrependo de ter lido.

O primeiro foi Caminho das Borboletas, de Adriane Galisteu. Era o relato da modelo que foi a última namorada de Ayrton Senna. A obra é datada, passaram-se mais de 20 anos e é o que posso dizer sobre a empreitada. Nesta amnésia literária, melhor para a apresentadora, mais ainda para o cronista.

O segundo livro era A filha que o Rei não quis, de Sandra Regina. A filha de Pelé, já falecida, foi empregada doméstica e depois se elegeu vereadora em Santos. O livro é anterior à vida política e tem um dos piores finais que li. A autora dizia que esperaria o telefonar tocar.

O tempo se encarregou de desaparecer com meus textos sobre livros, do século passado. Só que, este ano, descobri que todo o acervo de O Emissário se encontra preservado no sótão da casa do Alessandro Padin.

Quando for visitá-lo, prometo escarafunchar aqueles jornais e guardar os artefatos arqueológicos em meu museu particular. Tenho quase certeza de que o jornalista, naquele passado remoto, escrevia de forma parecida com a das autoras que analisou. A diferença era a liberdade e a amizade, temperadas com capricho por idealistas.