Hitchcock, plágios e pássaros

Quem gosta de cinema, com certeza, conhece um dos maiores clássicos da sétima arte, Os Pássaros, de Alfred Hitchcock (1963). Talvez, o que muita gente não conheça é a polêmica por trás da obra que inspirou o filme. Publicado em 1952, o conto Os Pássaros é da escritora inglesa Daphne du Maurier, que já tinha tido uma obra sua adaptada por Hitchcock em 1940, Rebecca, a Mulher Inesquecível, publicado um ano antes de ser levado ao cinema.

O problema é que, quando Os Pássaros estreou no cinema, o também escritor londrino Frank Baker reclamou que a história era plágio de seu romance homônimo publicado em 1936, dezesseis anos antes do conto de Daphne du Maurier aparecer.

Não foi a primeira vez que a famosa escritora inglesa se envolveu em acusações de plágio. A escritora brasileira Carolina Nabuco havia publicado um famoso romance em 1934 intitulado A Sucessora. Quando Daphne du Maurier lançou Rebecca (1939), ficaram claras as semelhanças com o romance brasileiro.

A acusação não é tão absurda quando sabemos que a própria Carolina Nabuco traduzira seu livro para o inglês na esperança de vê-lo publicado no estrangeiro, enviando-o para uma agência literária em Nova Iorque. Nunca teve uma resposta, mas alguns anos depois, surgiu o livro da escritora inglesa com gritantes semelhanças com seu livro, gerando inclusive uma resenha na prestigiada coluna New York Times Book Review, do jornal New York Times.

No caso de Os Pássaros a semelhança também é muito grande. O livro de Baker é narrado em primeira pessoa por um dos sobreviventes de um mortal ataque sem explicação de diversos pássaros. No contexto do ano de sua publicação, o romance traçava uma crítica ao capitalismo e às sociedades ocidentais, que ainda se recuperavam da Primeira Guerra e da crise econômica iniciada com o crash da Bolsa de Nova York, em 1929.

No conto de Daphne Du Maurier, a história se passa em uma fazenda no interior da Inglaterra, onde vive um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, agora aposentado, com sua família. Estranhos ataques de pássaros começam a preocupá-los e a outros moradores locais, levando lentamente a comunidade ao caos.

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Uma informação interessante é que Daphne era prima do antigo editor de Frank Baker, Peter Davies, chegando inclusive a trabalhar com ele por um período. Coincidência, acaso ou má fé?

Quando fez seu famoso filme, Alfred Hitchcock acabou não seguindo fielmente nenhuma das duas histórias, mas resolveu dar o crédito à escritora, causando a revolta de Frank Baker. Ele chegou a pensar em processar a Universal Studios e Daphne du Maurier, mas acabou optando por não fazê-lo. Assim como fez também a brasileira Carolina Nabuco.

Neste ano em que se comemoram os 80 anos da primeira publicação da novela de Baker, a editora DarkSide traz o livro para o Brasil e, como de praxe, numa luxuosa edição com capa dura e sobrecapa, baseada na edição definitiva e revisada pelo próprio autor em 1964.

Além de Os Pássaros, Frank Baker escreveu ainda “The Twisted Tree”, seu primeiro romance, de 1935 e mais de uma dezena de livros, incluindo “Mr. Allenby Loses the Way” (1945), “Embers” (1947), “My Friend the Enemy” (1948) e “Talk of the Devil” (1956); além de seu maior sucesso “Miss Hargreaves” (1940), uma fantasia cômica em que dois jovens inventam uma história sobre uma velha senhora apenas para descobrir que a imaginação deles a trouxe, de fato, para a vida.

Baker faleceu em Cornwall, Inglaterra, em 1983, deixando uma obra mais criativa do que a de Daphne du Maurier. O ideal é aproveitar a publicação de Baker pela primeira vez no Brasil e tentar ler também o conto de du Maurier, comparando qual a melhor história original do dia em que os pássaros se revoltaram…