Jogador n° 1 | Aventura tem tudo para se tornar mais um fenômeno pop

Ainda que seja delicioso, divertido e imperdível para quem viveu os anos 80 e todas suas referências, Jogador n° 1 mostra claramente o quanto a cultura pop de hoje parece refém do medo do novo e vê na nostalgia sua principal porta de fuga. É sempre muito mais fácil e seguro falar sobre aquilo que todo mundo já conhece e confia.

Como se novos mundos estivessem relegados às sombras. E isso ainda que o escritor Ernest Cline consiga fazer um pouco dos dois, já que cria uma distopia inteira para sedimentar sua aventura, mas isso acaba soando mínimo perto do objetivo principal do livro: caçar ovos. E isso ele faz muito bem.

Cline pega os nerds pelo pê e arrasta para dentro de um mundo com tantos detalhes que já foram vividos pela maioria que não será vergonha nenhuma parar a leitura para dar uma procurada no Google sobre um ou outro assunto. E se engana quem acha que a quantidade enorme de referências possa dispersar o leitor, já que o efeito é o completo oposto, criando um mundo vivo e uma experiência completamente viciante, visual e imersiva.

jogador-numero-1-imagem-1

Em três páginas de Jogador n° 1 você já foi atacado por Dungeons e Dragons (D&D), Atari, Oingo Boingo e John Hughes. E se você não sabe do que estou falando, pode fugir do livro, já que, ainda que a história seja uma Jornada do Herói clássica até o último pixel, ela é amontoada por uma carga tão enorme de referências, que seria impossível se divertir sem entender o que cada uma representa para uma década.

A Jornada no caso é do “caça-ovo” Perzival, que na verdade não se chama assim, sendo essa a identidade de seu avatar dentro do OASIS, uma espécie de realidade virtual que mistura o Second Life com um MMORPG e dá um passo em direção ao futuro, já que dentro dela as pessoas podem viver por inteiro. Um mundo onde a fantasia não tem limites criado por um programador chamado James Halliday.

Halliday então morre, mas deixa para trás um ultimo desafio em forma de testamento, um easter-egg (e se você não sabe o que é um easter-egg, pode fugir do livro também) protegido por três portais, um punhado de enigmas e alguns desafios. Quem encontrar o easter-egg primeiro, leva toda sua fortuna e de quebra comanda o futuro do OASIS. A corrida por encontrar o “egg” cria então os “caça-ovos”, especializados tanto na vida de Halliday, quanto em suas referências e que fazem dessa procura um trabalho/aventura.

E Wade Owen é um desses “caça-ovos”, Perzival, que acaba sendo o primeiro a encontrar o primeiro portal, o que desperta uma corrida contra a IOI, uma empresa que pretende transformar o OASIS em um programa pago e somente lucrar em cima dele.

Com essa ideia em mãos, Cline tem então a oportunidade de viajar sem amarras tanto por esse mundo virtual, quanto pelo futuro meio apocalíptico que cria. Um futuro que parece meio esquecido e o OASIS é a única válvula de escape de uma sociedade deixada de lado pelos anos que se passara. Uma crítica feroz, que não permite que o livro se torne panfletário, mas sim real, criando um futuro que tem cara de realidade e que poderia facilmente ser as próximas décadas de quem está lendo.

img_6461

Mas Cline quer mesmo é que você embarque com ele nessa aventura, um mundo virtual onde tudo que já foi pensado ou criado na cultura pop co-existe. Steven Spielberg e John Hughes estão lá em todos lugares, assim como muito video-game (Atari e fliperamas) e uma impressão de que o D&D (e demais RPGs) evoluiu para limites nunca antes pensado. É realmente impressionante o nível de pesquisa do autor, como quando discute o jogo Swordquest ou quando narra uma partida perfeita de Pacman com uma riqueza de detalhes empolgante e incrível. E esse detalhamento se estende para seus cenários, já que tudo parece saído de algum lugar, e colocar o leitor dentro daquele momento parece uma obsessão de Cline.

E o resultado disso são ideias deliciosas, como quando Perzival precisa “viver” um dos grandes clássicos dos anos 80 ou jogar fliperama contra um dos personagens do D&D. Cline sabe que seus leitores vão em busca das referências pop, então não economiza nisso.

Jogador n° 1 só falha em um segundo momento que não consegue carregar a agilidade e a empolgação do começo, derrubando um pouco o ritmo e andando demais em uma velocidade média. No fim, uma batalha final que acaba sendo enorme também não empolga muito (principalmente por, obviamente, repetir um punhado de situações para atar os nós), mas nada que atrapalhe a diversão principal e a cara de fenômeno pop.

O que nos leva ao começo do parágrafo e o pensamento de “será que seria realmente necessário ir lá atrás em busca de inspiração?”. Não que isso não seja divertido, mas por vezes hoje isso acaba soando como uma necessidade do mercado de não criar algo novo, uma opção que tem tudo para diminuir as próprias obras, que, por sorte, serão lembradas pelas próximas gerações, mas não por serem “elas mesmas” e sim por terem conseguido capturar perfeitamente bem o clima de algumas décadas anteriores. E é lógico que os fãs irão se esbaldar nos detalhes e na nostalgia, mas será que eles não mereciam algo novo? Algo que daqui a vinte anos possa ser nostálgico?

Em certo momento do Jogador n° 1, Cline lembra que após a morte de Halliday o que surgiu foi uma obsessão pelo anos 80, mas que logo isso passou e deixou para trás apenas os “caça-ovos”. Fica a esperança então de que quando a nossa obsessão atual pelos anos 80 passe, que pelo menos fique os “caça-ovos” para posteridade.

Jogador n° 1 Book Cover Jogador n° 1
Ready Player 1
Ernest Cline
Leya
2012
464

Em um futuro sem esperanças e cheio de pobreza, o OASIS se torna uma realidade virtual que faz todos "viverem" dentro dela, até que seu programador morre e deixa uma série de desafios em seu testamento, e quem vencê-los, leva de prêmio toda sua fortuna e ainda o controle total do OASIS. E no primeiro lugar dessa busca surge então Wade, mas conhecido por seu avatar virtual Perzival, mas nada será tão simples nessa aventura que mostrará que os anos 80 nunca estiveram tão vivos.