La Dansarina

Uma das melhores HQs do ano!

La Dansarina traz três jornadas de uma forma tão fluída que é impossível não querer virar a página

Cada herói tem uma jornada, seja uma épica ou apenas umas daquelas que definem pequenas decisões do dia-a-dia. De qualquer modo, todo herói é definido por essa sua trajetória, por esse caminho que ele percorre e que muda sua vida, sua visão de mundo e tudo que vem depois disso. La Dansarina é sobre a jornada de um herói.

O herói no caso é esse pequeno garoto chamado Petro em meio ao único desejo de enterrar o corpo de sua mãe no solo da capela de São Miguel Arcanjo, mesmo que isso signifique carregar seu ataúde por um caminho cheio de obstáculos. A Dansarina do título se refere à notória gripe espanhola que além da mãe de Petro, matou algo em torno de 300 mil pessoas no Brasil em 1918 (no mundo chegou a algo em torno de 40 milhões).

La Dansarina então é sobre morte, mas mais do que isso a Graphic Novel é sobre aquelas jornadas do primeiro parágrafo. Na verdade três jornadas que acontecem ao mesmo tempo e se entrelaçam em uma sensibilidade e numa agilidade que fazem ser impossível não virar a próxima página. Nela você talvez encontre esse mesmo Petro em dois momentos de sua vida, idoso e garoto, mas também acompanha a própria Dansarina em sí, nesse caso um deleite visualmente metafórico que dá vida à morte (por mais que essa expressão possa parecer irônica).

Ainda mais, pois o que não falta na história de Lillo Parra e Jefferson Costa é vida. Um ritmo incrível, soluções visuais sensacionais e uma vontade enorme de aproximar o leitor desse mundo. O recurso usado por Parra de imprimir os vários sotaques e vícios de linguagem de seus personagens é um espetáculo à parte (além de mostrar o quanto o Brasil é multicultural e plural). Parra faz com que La Dansarina se torne sonoro e o leitor escute cada uma daquelas vozes.

Não só isso, o texto de Parra ainda impressiona ao caminhar entre seus arcos sem a menor dificuldade, muito pelo contrário, com uma força empregada àquela história que chega a ser tocante. Como se soubesse que cada um que passasse por aquela trama merecesse sim sua atenção. Parra anda pelos dois momentos de Petro, mas encontra tempo para destrinchar personagens através de flashbacks e histórias paralelas, chegando até ao ponto de fechar um arco depois do “créditos finais” e até colocar uma cena escondida no final. Um esforço para usar todo material e espaço que têm à sua disposição, mas também um modo de surpreender quem já está acostumado com o modelo comum.

La Dansarina

Até porque, uma coisa que La Dansariana não é, é “comum”. Nem em termos de texto e muito menos em termos de visual. Jefferson Costa consegue criar algo simples, bonito e objetivo, ao mesmo tempo que ágil, dinâmico e com uma vontade de sair daquele esquema batido de quadrinhos certinhos. Costa então se permite ser caricatural e esquisito o suficiente para ter uma personalidade incrível. Como se abrasileirasse o traço rebuscado e firme de Kevin O´Nell (Liga Extraordinária e Marshall Law), uma possibilidade que é ainda mais interessante quando Costa dá de frente com qualquer detalhe gore ou mais corajoso.

A arte de Costa ainda se dá ao luxo de encontrar perfeitamente bem seu lugar naquele mundo, explorando extremamente bem alguns planos diversificados e “movimentos de câmera” que dão uma vida enorme ao seu trabalho. O modo como cria a personagem “Vovó” a partir de diversos planos detalhes é um deleito, como se a imagem dela se formasse através de uma mosaicos de impressões, sons, cheiros e sentimentos. Assim como mais tarde passa por uma luta de caporira que parece querer pular das páginas do HQ.

E isso se completa com essa força narrativa impressionante, que toca em assuntos sensíveis e tira de letra qualquer dificuldade em chegar a isso. Um história sobre idas e reencontros, sobre a oportunidade de cruzar com essa Morte (ou a Dansarina) e ter um diálogo existencial que já nasce clássico ao olhar de longe para o Sétimo Selo (aquele filme do Bergman) e perceber que no final das contas tudo é sobre essa jornada, seja diante da peste ou da gripe espanhola. E quando se consegue fazer tudo isso caber nas páginas de uma Graphic Novel, falta epenas espaço para os elogios.

Principalmente, elogios para Costa e Parra, que criam um experiência única em termos de história em quadrinhos, não só pela sensibilidade, como também pelo modo como conseguem exaurir a linguagem que têm em mãos. Como se não existisse nada a ser acrescentado ou corrigido nesse trabalho. Um momento único (e difícil de acontecer em termos de HQ) em que tudo parece estar no exato lugar onde deveria estar, batizando com certeza La Dansarina como um dos grandes lançamentos do mercado de quadrinhos brasileiros dos últimos tempos.

La Dansarina Book Cover La Dansarina
Lillo Parra (roteiro) e Jefferson Costa (arte)
Quadro-a-Quadro
2015
140

Quando um pequeno garoto vai em direção a uma jornada para conseguir enterrar sua mãe em solo sagrado, seu caminho esbarra em um mundo tomado pela morte, sua enviada e decisões que refletirão pelo resto de sua vida.

  • Lucas Pimenta

    Vinicius, que bom que você gostou do álbum. Essa é uma obra que muito me orgulhei de editar. Lillo e Jefferson são dois dos melhores autores de quadrinhos na atualidade!

    Obrigado por sua resenha. Ficou excepcional!

    • http://www.cinemaqui.com.br Vinicius Carlos Vieira

      opa… valeu mesmo! Longa vida aos bons quadrinhos e bons profissionais das HQs! Parabéns mesmo pelo trabalho de vocês!