Marçal de Segunda | Uma camada de gelo protege meu coração quente

Um copo de uísque me faz refletir sobre a vida e seus rumos bem mais do que dezenas de páginas de Filosofia e outras ciências humanas. Deitado, depois da festa, o mundo nem está girando tanto assim no teto, mas ecoam vozes de cobrança em meio ao som gritante de músicas pasteurizadas e bundas batendo no chão de horas atrás.

Na hora dos parabéns, meu abraço não parecia ser apertado o suficiente para representar o carinho por quem celebrava mais um ano de vida de quem é do bem. Fui cobrado, fiquei pensativo.

Longe de ser um homem de gelo ou alguém excessivamente prático e sem alma, mas as dificuldades por expressar sentimentos e falar das coisas do coração me perseguem como uma sombra desde a adolescência, talvez. Lágrimas só surgem quando de raiva, pois os momentos de tristeza fazem de mim uma estátua ou um objeto flutuando no espaço depois de ser arremessado pela janela de uma nave espacial. Fico na mesma velocidade, orbitando.

Não faz muito tempo, alguém disse que minha ironia é melhor ainda por eu não esboçar reação ou sorriso na hora das piadas ácidas ou dos comentários cirúrgicos. Ninguém há de saber a diferença entre críticas ou atitudes non sense se não conhecer minha obra. E o preço que pago por isso faz dos juros do cartão de crédito a moedinha no cesto de ofertas da igreja.

Penso nisso quando me deparo com casais gigantescamente apaixonadíssimos esbanjando felicidade requentada em micro-ondas, que na próxima semana já estão completamente amarrados com nó de marinheiro em outro relacionamento. Talvez nem fosse necessário um galão de oxigênio para nadar em águas tão rasas quanto essas. Só sei mergulhar profundamente em tudo que faço.

Do café da manhã, passando pelo trabalho e chegando às declarações, é impossível para mim dar uma respirada sem paixão. Não consigo ser raso, lamento.

Ao mesmo tempo, sou incapacitado para cair em clichês e pieguices quaisquer. Devo ter herdado esse certo distanciamento do pai, que me retribuiu com um abraço de lado o último presente. Sei o quanto ele amou a caixa com os DVDs de todos os filmes do Bruce Lee, mas não somos muito expansivos.

Até tentei suprir essa falta criando um personagem, como um tipo de alterego em mim mesmo. As piadas e tentativas desenfreadas de falar e falar e falar escondem uma timidez seletiva. Ela aparece em momentos esporádicos e sem uma regra preestabelecida pelo Acaso.

Fico na minha, quieto, no meu canto. Só falo o que penso, mas penso muito naquilo que falo antes de falar sem pensar. Nos dias em que tentei ser um pouco diferente e esbanjar sentimentalismos, fui jogado para fora de uma nave espacial ainda em órbita e demorei um bom tempo até cair num mar distante. Voltei nadando e passando muito frio até voltar a meu lugar de origem. Curiosamente, ninguém jogou uma boia para me dar uma força e acelerar as braçadas até terra firme, perguntando se estava tudo bem. E olha que havia muitos navios conhecidos me observando com distanciamento.

whiskey

Pode ter algo a ver com aquela velha história do marketing pessoal, de saber se vender. Nas atitudes emotivas antirracionais, não sou acusado da tal frieza. O mesmo cara seco na hora de demonstrar tipos de sentimentalismos bem digeridos pelo público médio é lembrado nos momentos em que o braço estica procurando se segurar antes de cair no abismo.

Talvez seja algum capítulo da interminável novela da espetacularização das banalidades explique tais fenômenos paradoxos. Eu, aqui no meu canto, vou ser figurante. À margem, esquecido, irrelevante, não importa. Na minha, sempre.

Acho até que sou um cara legal, tento fazer o melhor de mim em tudo. Já falei: sempre com paixão, de coração. Mesmo nesses momentos em que um gelo dá uma disfarçada nesse hotel com tanta gente e coisas hospedadas. Sim, eu tenho coração, mas não consigo mostrar isso o tempo todo. Nem devo.

Pior: não consigo.

Ou então isso é tudo efeito do uísque, maldito uísque. Eu aqui, olhando para o teto, pensando nisso. Da próxima vez vou dar um abraço mais apertado, adocicar mais as palavras, falar menos o pensado e mais o desejado. Mas vai soar falso, não consigo ser falso, odeio mentir.

Dormi, acordei com uma leve ressaca. Preciso parar de beber uísque.