Marçal de Segunda | Morte e ressurreição do meu celular

Foi o próprio Tim Maia e sua cara rechonchuda estampando a capinha do meu celular o responsável pelo drible que o aparelho deu na dona Morte. Se para nós ela aparece em traje sombrio e foice na mão, para os eletrônicos hipnotizadores ela surge sob a forma de um fax gigante e antiquado, com braços e pernas, apagando-os como um infarto fulminante.

Atire a primeira pedra quem nunca se viu sob o desespero do aparelho não ligar. Muito pior do que assaltos. A vã esperança ao retirarmos infinitas vezes os carregadores de suas nádegas obriga Urbanildos a caçar truques e tutoriais da internet para recuperá-los, mesmo após eles caírem mais que atacantes e peões.

Havia marcado um encontro seríssimo (eu acho) em uma dessas lanchonetes bonitas que servem hambúrgueres artesanais. Num mundo cada vez mais gourmet, queremos nos sentir especiais. Os animais em cada nota não mudam, bem como a ânsia pela transação aceita na maquininha de débito e crédito, o único lugar onde temos mais crédito do que débito. Mas eles nos convencem de que somos especiais ali.

Não poderia ser diferente, um ambiente agradável com cervejas caras sempre causa boa impressão, ainda que por questões ideológicas eu sempre divida a conta. Quando sair do curso te aviso, avisei umas dez vezes para ela não se fazer de desavisada e furar sem aviso prévio.

Apenas o grupo de pessoas neuróticas é capaz de estar com seus aparelhos conectados o tempo todo. Como faço parte dos neuróticos prevenidos, também carrego dois carregadores para onde vou, deixo um no banco do carro e outro portátil no porta-luvas, pois vai que tudo dá errado na hora certa.

E foi no momento mais inadequado que o blecaute tomou conta do meu aparelho caro, que comprei há quase dois anos na esperança quixotesca de que ele morreria apenas ancião. Parei de contar as vezes em que tentei ligá-lo na décima quarta e o desespero tomava conta de mim enquanto a professora continuava a aula sem se dar conta do meu Apocalipse interno e sem profecia.

Testei fios e cabos, falei com os colegas, pedi ajuda e ninguém sabia o que fazer. Passei a viver as fases do luto. A de negação me dava esperanças em reverter tudo aquilo de uma hora para outra, mas não encontrava o diafragma do aparelho para uma massagem cardíaca, aumentando o desespero.

Ela nunca mais falaria comigo e perderia uma oportunidade de um lanche para forrar bem mais que os estômagos.

Não fiz promessas, coerente com minhas (não-)crenças, e passei a ter raiva. Como poderia não ter anotado em algum papel todos os 500 contatos de minha agenda, se estava na cara que o neoliberalismo faz a indústria nos vomitar produtos com data de validade curta para consumirmos ainda mais?

Culpei de Temer à proposta do PSG por Neymar como conspiradores da quebra do meu aparelho e ainda nem tinha terminado de ler aquele e-mail importante de um possível trabalho. Inacreditável. Meu luto me fez passar para a fase da barganha e prometia a mim mesmo ser mais prevenido. Podia ser um castigo por ser negligente e não colocar uma película de vidro.

celular-quebrado

Películas para as telas dos celulares não são frescura, mas um inconveniente necessário, prima distante das camisinhas e dos guarda-chuvas. Não sabia se culpava mais os socialistas de iPhone ou os capitalistas pobres.

A depressão tomava conta de mim quando a aula acabou e cheguei à lanchonete ofegante, pouco antes do horário combinado e implorei de joelhos para a operadora de caixa me emprestar o celular.

– É um caso sério, moça, mais um cliente que vai ajudar a aumentar seu faturamento, pois vamos voltar sempre e isso vai causar uma boa impressão a vocês, me deixa usar teu aparelho e entrar no Facebook agora? Tipo urgente, mesmo.

Ela não tinha chip. Eu, esperança. Cheguei à fase da aceitação.

Voltei para casa sem música no som do carro, minha mente tocava a marcha fúnebre. Não haveria enterro, só lamentação por aqueles dias sem celular e a espera do parto de um novo aparelho.

E se acontecesse algo mais sério ou eu precisasse da ajuda de alguém, como faria? Existe vida após a morte das baterias?

Minha mãe reclamou por eu não ter passado no mercado para comprar a mistura do dia seguinte como ela pedira via mensagem. Meu pai e minha irmã dormiam. Eu corria para avisar Deus, o diabo e o mundo que um complô universal vitimara meu celular e tudo estava perdido.

A vizinha mais nova (e esperta e bonita) foi quem me alertou: esses aparelhos novos podem ser resetados segurando alguns botões por mais de 10 segundos. Eu tive agenda eletrônica, não me acostumaria com isso.

A luz branca se acendeu e ele ressuscitou. Eu não morri. Uma overdose de mensagens não lidas e uma em especial.

– Oi, Lê. Tive um imprevisto, não vou poder ir ao lanche hoje, vou sair mais tarde do trabalho. Vamos marcar outro dia?

O Temer ainda era o presidente, não houve nenhuma catástrofe no mundo e os papos nos grupos seguiam os mesmos, entre pornografia bizarra, amenidades sobre o tempo, boa noite à família e pitacos sobre a rodada.

Liguei o notebook e procurei capinhas para o celular, na dúvida entre uma do Sérgio Mallandro e outra da Dercy Gonçalves.

  • Ana Patty

    Estive angustiada por aqui , torcendo pra que desce tempo de voce avisa la sobre o imprevisto! Rsss adoreii! PARABENS LÊ!!