NEXOFONIA I Emoção

Em 2017 optar por ler um pronunciamento de 2013 não possui nada de deslumbrante – parece ser possível a todos ler atualmente os sentimentos de um poeta disléxico do século XV, as impressões cosmológicas de um filósofo do século XIX e as narrativas cruéis de uma escritora do século XX. Por que ler essa ou aquela criação hoje?: isso interessa degustar. A curva que Georges Didi Huberman fez com aquilo que é mais antigo do que o tempo talvez seja a pista primeira para chegarmos ao meio desse enigma semi-inteiro chamado: sentimento.

que-emoção-que-emoção

Confessará qualquer leitor de Que emoção! Que emoção!  que cinema, linguagem e pensamento estão de fato soldados à conhecida expressão emocional. Acreditem, o óbvio é sempre esse afago no canto esquerdo do estômago: o livro possui poucas páginas, a simplicidade está lá e, consequentemente, o autor vai fundo. Subestimar sua finura, desdenhar de seu designe é lamber, de fato, a ponta amolada de uma navalha. O autor diz.

Definir um assunto e rasgá-lo gentilmente é tão importante que Huberman decidiu fazê-lo, quando podia simplesmente esboçar a estátua fiel desse elemento incontornável no humano. Sim, ele preferiu o bisturi à massagem homeopática. E já que os órgãos estão sendo continuamente mais presentes nestas linhas, vamos à nossa primeira Nexofonia nesse lugar conhecido como tela de (o que for que seja, rs):

“A emoção não diz ‘eu’: primeiro porque, em mim, o inconsciente é bem maior, bem mais profundo e mais transversal que o meu pobre e pequeno ‘eu’. Depois, porque, ao meu redor, a sociedade, a comunidade dos homens, também é muito maior, mais profunda e mais transversal do que cada ‘eu’ individual. Eu disse anteriormente que quem se emociona também se expõe. Expõe-se, portanto, aos outros, e todos os outros recolhem, por assim dizer -bem ou mal, conforme o caso – a emoção de cada um.” p.30

(HUBERMAN, Georges Didi. Que emoção! Que emoção? 2013)

Huberman admite o sentimento vai além próximo à metade de sua fala.

Como estavam as pessoas que o observavam?

Provavelmente emocionadas, exceto os psicopatas revestidos de Amélie Polain afetuosa.

Como seguiu a respiração dele? Que interferências mentais lhe escorreram de um hemisfério ao outro do cérebro?

Quem lê, não é obrigado a pensar em tais coisas; mas esta é uma Nexofonia, e a intenção é provocar o contato com o que está solto – especialmente a voz escondida em um livro cuja matéria prima já foi inevitavelmente o miolo de uma árvore e o conteúdo a cervical de um rio.

Em dado momento de suas elucubrações, depois de fotos de bebês chorando e chimpanzés mandando sensualizantes beijos, o filósofo decide colocar em evidência a narrativa de O Encouraçado Potenkin. Quem já assistiu, por obrigação-curiosidade-ou-erro, deve ter a mínima lembrança dos choramingos se tornarem punhos fechados, do fundo permanecer preto e branco, dos sons se avolumarem inquietantes e das faces das personagens mudarem seus gestos de sofrimento em expressões de luta e ação.

Lutar. A emoção luta pelo nós dentro de cada eu é o que o livro e o filme ligam entre si. Talvez, por essa delicadeza, ele seja para além dele mesmo também uma emoção transmutada para o mundo. Ao tratar de forma doce e lúcida deste nosso constante “emocionar”, crava em quem se abre à leitura e companhia dele um abraço de sentidos.

Assim, aguardemos o vindouro sentimento, emoção, espasmo sutil, medo… porque, do mesmo modo com o qual estas linhas vieram e foram, eles virão e retornarão para esse poço do eu ampliado, o eu-tu-ele, o implacável Eu-Nós cuja interioridade, felizmente, Huberman soube clarificar.

Que haja coceiras suficientes para procurar esse livro e, do autor, tomar o melhor do encontro.