O começo é tudo

Pessoas que querem escrever sempre me dizem o quanto é difícil colocar no papel a primeira palavra. Começar um texto parece mesmo ser um dos maiores entraves para quem escreve, por isso, a fama de algumas primeiras frases ao longo da história como, por exemplo, a de Tolstói para Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.

Ou o início de uma das nossas mais incensadas obras: “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite”, obviamente de Macunaíma, de Mário de Andrade.

Outras têm começos por vezes intrincados e misteriosos, mas acabam virando obras que desafiam o tempo, como Frankenstein, de Mary Shelley, que se inicia com uma carta endereçada a uma tal Sra. Saville: “Você gostará de saber que nenhum desastre sucedeu ao iniciar-se um empreendimento que você olhava com maus pressentimentos”.

Ou A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói, cujo início não tem nada a ver com o resto da obra: “No vasto edifício do Foro, num intervalo do julgamento da família Mielvínski, os juízes e o promotor reuniram-se no gabinete de Ivan Iegórovitch Chebek, e a conversa versou sobre o célebre caso Krassov.”

Mesmo uma das obras seminais de nossa literatura como Dom Casmurro, de Machado de Assis, pode ter um início um tanto quanto banal: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”

Algumas obras memoráveis e festejadas ao longo dos tempos, no entanto, podem até começar de maneiras não muito atraentes. É o caso, por exemplo, de Os miseráveis, de Victor Hugo, que principia com uma descrição: “Em 1815, era Bispo de Digne o Sr. Charles-François-Bienvenu Myriel, um velho com mais ou menos setenta e cinco anos de idade, que aí residia desde 1806.”

Ou de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen: “A família dos Dashwood vivia muito tempo em Sussex.”; ou da Odisseia, de Homero: “Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso, que depois de haver saqueado a cidade sagrada de Tróade…”, por exemplo.

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A verdade é que começar um livro ou um simples texto nunca é fácil. Até porque, do começo vem todo o resto. Inclusive, muitos autores não conseguem escrever se não começam pela primeira frase.

Como um jogo, desafio ou brincadeira, que seja, lanço aqui dez inícios de obras inesquecíveis e convido os leitores a acertarem. Já aviso que não distribuiremos brindes e nem prêmios. Nossa recompensa, de todos, é fomentar o amor pelos livros. Boa sorte!

1.“- Então, o que é que vai ser, hein?”
2.“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos;”
3. “Nossa época é essencialmente trágica; assim sendo, recusamo-nos a vivê-la como tal.”
4. “—–estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender.”
5. “Tinha dado onze horas no cuco da sala de jantar.”
6. “– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.”
7. “A inclemência do sol arrancava gotas de suor da testa do velho, mas ele segurava o copo de chá quente e adocicado como se quisesse esquentar as mãos.”
8. “O meu nome é Severino, não tenho outro de pia.”
9. “As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia lusitana…”
10.“Jack Torrance pensou: Cretino.”