O Legado de Júpiter | Millar e Quitely desconstroem o mundo dos super-heróis

Imaginem um mundo onde super-heróis existem. Esqueça o escapismo barato e os clichês que afogam a Marvel e a DC, um mundo onde essas pessoas com super-poderes não só são uma realidade, como decidem que podem mudar o mundo através de sua “boa vontade”. Está ai o cenário de O Legado de Júpiter, mas está ai também o modus operandi de seu criador, Mark Millar.

Uma marca desse católico escritor escocês que desde de seus primeiros trabalhos já “rabisca” esse conceito. Como quase todos bons escritores ingleses que tomaram de assalto a indústria americana (e talvez ainda tomem), Millar começou na 2000 AD, uma espécie de revista de histórias curtinhas com cara de antologia. Mas foi só no ano 2000 que ele substituiu Warren Ellis nas histórias de The Authority.

Toda essa minibiografia é para dizer que é essa passagem de menos de dois anos pela revista da Image que talvez tenha formatado aquilo que Millar é hoje e, principalmente, O Legado de Júpiter. Authority mostrava um grupo de super-heróis que chegou a conclusão que, já que eram “super” então porque não responderem apenas a eles mesmos e salvar a Terra do jeito que melhor eles quisessem?.

O conceito se estendeu então para vários trabalhos de Millar, incluindo seus já clássicos Superman: A Foice e o Martelo, na DC, e o reboot dos vingadores para sua linha Ultimate, Os Supremos (em inglês, “Ultimates”). Em ambos, a ideia era pegar personagens clássicos, coloca-los em um novo mundo (mais real) e deixar com que eles reinassem livres dali em diante de modo a fazerem sentido dentro do que chamamos de realidade.

O Legado de Júpiter é então somente uma das pontas disso, um mundo que o próprio autor já batizou de Millarworld, onde criações como kick-ass e O Procurado poderiam se sentir ainda mais à vontade. E assim como nos dois gibis citados acima, o que Millar faz é justamente isso: jogar seus heróis em situações onde a realidade mostra suas fragilidades.

O Legado de Júpiter

Separada em 10 edições e no Brasil lançado em dois encadernados, esse primeiro número de O Legado de Júpiter vai até a metade da saga desse grupo de pessoas normais que em 1929 foram prejudicas pela “Grande Recessão” e, lideradas por Sheldon Sampson, acabam indo parar em uma misteriosa ilha que lhes dá poderes inimagináveis.

E como os nomes com as iniciais iguais não enganam, Sampson se tornou o maior deles, o Utópico. Mas como o próprio nome do gibi diz, seu legado é que move a história, já que ela pula para os dias de hoje (em uma nova crise nos Estados Unidos) e um cenário onde os maiores heróis da Terra acabam com qualquer ameaça, mas seus filhos (principalmente os dois filhos do Utópico), parecem não saber bem o que fazer em um mundo onde seus poderes quase não são mais necessários.

Millar segue em uma discussão que ele pode ter começado em Authority, mas que vem de bem mais longe, como em Cavaleiro das Trevas, Watchmen e Miraclemen (ou “Marvelman”, como preferir): o totalitarismo. Sim, de um modo ou de outro, todas essas histórias discutem o uso da força (nesses casos “super-força”), para impor ideias e ideais em uma sociedade mais fraca.

De modo incrível, Millar então discute isso através dos dois lados dessa moeda. Utópico é o herói clássico, com sua capa vermelha reluzente e líder, já seu irmão Walter, que tem entre seus poderes a capacidade de criar, dentro da cabeça do inimigo, uma outra realidade, acha que seus intelectos avançados devam ser usados para tirar o país da crise. Mas Sheldon acha que eles não devem influenciar os governos.

Ambos os discursos são tão bem apresentados e argumentados que é fácil você seguir adiante com qualquer um deles. Ainda mais quando Millar apresenta um Utópico que fora dos combates é um verdadeiro babaca autoritário com a família. Mas como sempre, é a violência sobre a razão que empurra isso para um caminho sem volta.

E para coroar essa história clássica e ao mesmo tempo violenta, ninguém melhor que um velho parceiro de Millar, Frank Quitely. Parceiro recorrente de outro escrito escocês, Grant Morrison, Quitely trabalhou com Millar em Authorithy, mas depois disso marcou a década com seu traço limpo e violento tanto na DC, quanto na Marvel.

Na primeira também com Morrison, talvez tenha feito uma das histórias mais importantes da Liga da Justiça em Liga da Justiça: Terra 2 (curiosamente, no Brasil essa edição saiu sem qualquer destaque na revista regular dos personagens). Ainda na DC também desenhou “mais recentemente” o que para muitos (inclusive eu) seja a história definitiva do Supermam em Grandes Astros Superman (também com Morrison).

O Legado de Júpiter

Já na Marvel (também com Morrison) desenhou grande parte da passagem do escritor pelos X-Men, e só não o fez inteiro, já que seus prazos não conseguiram acompanhar sua produção. E essa demora fica bem clara logo que você bate o olho em qualquer trabalho seu. Seu traço conversa com o realismo e com o “comic” de modo empolgante e limpo. É real, mas é HQ.

E nesse caso, com Millar, seu trabalho ganha um ritmo ainda mais cinematográfico. Suas paginas seguem uma organização na maioria do tempo de cinco quadrinhos por página, quase sempre três planos abertos, um outro “ângulo de câmera” e enfim um close-up. Sem fundo, cada peça na página parece mais emoldurada como uma pequena obra de arte (ou uma tela de cinema). E esse ritmo é tão incrível e ajustado que de cinco quadrinhos por página, em certos momentos essa diagramação passa a quatro e ai, estourando sua cabeça, joga em seu peito uma página inteira quase sempre estarrecedora.

Uma formatação que é usada por todas edições, e mesmo quando ao invés de cinco, se tornem quatro regularmente, uma diminuição sempre leva a uma página inteira. Pontos de virada e momentos inesperados sempre ganham suas grandes páginas e fazem você ficar por alguns segundos (ou minutos), olhando para esse momento. Lá para o final ainda existe um único splash page unindo duas páginas para mostrar a devastação do poder de uma personagem, mas mesmo assim a página acaba com um close-up, como se fosse fechando o foco da câmera antes do corte.

E com Millar no comando, Quitely tem a oportunidade de fazer um de seus trabalhos mais caprichados, não que com Morrison não faça, mas aqui ele parece ter a oportunidade de estar em uma história muito mais linear e ágil. Tem por exemplo a oportunidade de matar uma personagem com requintes de crueldade por três páginas, resgatando uma ideia do começo da primeira edição e enganando todos que estão com a revista em mãos.

Em um outro momento, ao invés de mostrar a ação, coisas voando e janelas quebrando, fecha “sua câmera” na boca de outra personagem e só depois mostra os estragos de seus poderes. Como se Millar e Quitely estivessem tão à vontade com a linguagem dos quadrinhos que consigam descontruir boa parte dos conceitos estéticos que o mercado de quadrinhos atuais prefere seguir por preguiça ou incompetência.

O Legado de Júpiter é então sobre isso, sobre o quanto os quadrinhos atuais muitas vezes se perdem dentro de uma autofagia sem perceber o quão longe podem ir. E Millar leva sua história para esse lugar longe, mas perto, discutindo um pouco da dicotomia dos dias atuais, de tudo ter dois lados, um pragmático e outro extremista, mas onde quem leva a pior é sempre quem está no meio, querendo viver sua vida com seus super-poderes sem encher a paciência de ninguém.

Mas o mais importante, O Legado de Júpiter podia acontecer na Marvel ou na DC (e o número enorme de referências não me deixa mentir), mostrando que ainda há jeito para se contar boas histórias com super-heróis. Desde que se dê a oportunidade para gênios da nona arte como Mark Millar e Frank Quitely. O único problema: esperar a Panini lançar o segundo encadernado e não morrer de apreensão.

O Legado de Júpiter Book Cover O Legado de Júpiter
"Jupiter´s Legacy"
Mark Millar e Frank Quitely
Image / Panini
2016
136 páginas

Um grupo de humanos ganha super-poderes ao encontrarem uma ilha misteriosa, mas décadas depois, em um mundo onde todos perigos não são mais uma ameça, são suas próximas gerações, seus filhos, que devem tentar lidar com a responsabilidade de viverem em um mundo que não precisa mais deles... ou que na verdade pode precisar mais do que esperam.