Marçal de Segunda | O mundo segundo as formigas

Se ando sobre um solo cheio de mato, não paro de olhar para o chão. Pior do que meter os pés naquilo que saiu das entranhas de cavalos ou cachorros é quando me deparo com um furo cercado de certa areia. Quem dera fosse uma tentativa de colocar parafusos no chão: é um formigueiro.

Quem já pisou no habitat dessas caçadoras de açúcar em nossas casas sabe bem o quanto essa experiência é desesperadora. Impossível não ignorar as instruções para aderir à calma enquanto se multiplicam as mordidas dos seres minúsculos subindo as escadas de nossas pernas, enquanto corremos para pular no primeiro balde d’água pela frente.

Tenho até certa admiração por uma das espécies mais trabalhadoras do mundo animal. Elas entendem nossa distração como um ataque mortal. Todas se unem contra aquele gigante a destroçar seu mundo construído pelo suor de filas ordenadas, nas quais cada uma carregava uma folha, um fragmento de doce, um resto de cadáver. Tudo por um bem comum.

Desastrado que sou, não foram poucas as vezes em que saí correndo depois de pisotear a moradia das formigas. Via maldade em usar o sol e uma lupa para matá-las, como os livros de ciências da escola nos ensinavam bisonhamente.

No máximo, ia até à feira com a mãe e comprava um monte de cravos. Dizem que elas são espantadas com tal iguaria e algumas vezes até que funcionou. Morda um cravo quando estiver comendo um beijinho numa festa de crianças e você vai entender os motivos que levam as minúsculas a correrem com as antenas balançando por aí.

Fico imaginando como devem ser os diálogos dessas operárias lá embaixo da terra, enquanto se organizam. A formiga-rainha e a admiração pela reprodutora, ainda que haja quem diga que ela não exerce nenhum tipo de autoridade sobre o proletariado formigueiro.

Elas devem ficar olhando para cima, para o buraco que evito pisar quando ando nos terrenos arenosos ou com mato aparado, como o que passo diariamente para atravessar uma avenida ou meu pai usa para levar o cachorro a passeios corriqueiros.

formigas

– Olha aquela luz. O que será que tem para além desse nosso mundo? Poderíamos pedir para alguém no além-formigueiro nos ajudar a sair dessa vida de só trabalhar e trabalhar.

– Verdade. Algum Formigão-Mor está olhando por nós.

E elas continuam seus trabalhos incansáveis, até sair de sua irrelevância apenas nos momentos em que sua casa se instala no batente da porta ou a revolução se dá quando eu piso em sua morada.

– A areia toda está caindo, é o apocalipse, vamos subir e sair do formigueiro rumo ao céu, o paraíso prometido de açúcar infinito e uma paz sem fim.

Para a infelicidade das formigas, pouco nos importamos para cada uma delas. Enquanto elas olham para cá, basta um pisão, uns inseticidas fedidos, uma lavada caprichada no canto do batente, no quintal ou no terreno todo cheio de mato.

Se para elas, a tragédia é um sinal de algum formigão antigo, para nós, não passa de uma das diatribes do acaso. Ninguém se importa com as individualidades das formigas ou as coincidências daqui de fora do formigueiro.

Tampouco, nenhuma delas sabe quando um pé tamanho 43 vai destruir em segundos tudo aquilo que levaram anos para erguer. Ou um rodo vai levar água suficiente para seus corpos boiarem depois de um tsunami, uma tragédia no formigueiro.

Posso ter todo o cuidado para não levar os caminhos do acaso nos pés, evitando pisar num minúsculo universo. Mesmo assim, não sou capaz de entender as formigas e como elas interpretam o mundo.