Os mais vendidos, a miséria e a mídia

Quando se olha para a lista dos livros mais vendidos no Brasil nos últimos meses, a impressão que se tem é aquela que várias pesquisas apontam: na maioria, não gostamos de ler. Em primeiro lugar nas vendas do mês passado está O diário de Larissa Manoela, de Larissa Manoela (Harper Collins Brasil), em segundo, a onipresente Jojo Moyes com Como eu era antes de você (Intrínseca).

Na lista da revista Veja, uma das mais tradicionais do país, as duas autoras aparecem em primeiro lugar, uma vez que a lista é categorizada. Assim, Larissa está em primeiro na categoria infanto-juvenil e Jojo Moyes na de ficção. A lista ainda traz um livro sobre a operação Lava-jato e outro sobre ansiedade, mas nenhum que mereça atenção de um leitor experiente e que não goste do cabresto da mídia.

Larissa vem embalada pela personagem Maria Joaquina, que interpretou em Carrossel e também no papel de gêmeas na novela Cúmplices de um resgate, ambas no SBT. Sem falar nos mais de 3 milhões e meio de seguidores que tem no Instagram e pelo menos outro milhão no Facebook. Ou seja, claramente, um produto da mídia e das obviedades das redes sociais.

Livros mais vendidos 2016!

A inglesa Jojo Moyes começou a escrever só em 2002. Jornalista de formação, foi correspondente do jornal The Independent, mas parece mesmo ter tido a inteligência necessária para descobrir uma carência no mercado editorial. Carência, aliás, que soube preencher muito bem. Já publicou mais de dez livros e vendeu espantosos 8 milhões de exemplares, embora suas histórias sejam rasas e apenas modernizam romancezinhos do tipo Júlia e Sabrina, bem conhecidos do público feminino brasileiro. Mais uma vez, um produto midiático.

Brasileiros não gostam de ler e muito menos de comprar livros. Consequentemente, não frequentam livrarias e não sabem separar coisas boas de ruins, uma vez que não têm repertório ou experiência necessárias para isso. Poucos vão às feiras, bienais e festivais como a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), apesar de a mídia dizer o contrário.

Na verdade, o que os jornais se esquecem de dizer, é que são sempre as mesmas pessoas circulando pelas mesmas mostras. Os “estranhos”, quando aparecem, estão atrás de falsas atrações fabricadas no YouTube e no Facebook, mas acabam engrossando as estatísticas mesmo assim, gerando números irreais.

Nunca os brasileiros desprezaram tanto os livros como hoje em dia. Basta lembrar dos incríveis 70% da população que, em 2014, não leram um único exemplar (apontados por pesquisa da Federação do Comércio do Rio de Janeiro, feita em 70 cidades de nove regiões metropolitanas do país. Aliás, a mesma pesquisa apontou que 55% da população não havia feito nenhuma atividade cultural naquele ano.).

A nossa miséria intelectual é visível, principalmente quando a lista dos mais vendidos não traz nada relevante; independentemente de gosto. Os poucos que compram e leem, com também pouquíssimas exceções, só procuram o que foi amplificado pela mídia. Isso só reforça a nossa mísera condição; ovelhas boazinhas atrás da líder da matilha, no caso, a mídia.

Uma pena, mas um quadro que só deve se ampliar nas próximas décadas. Pelo menos, enquanto Educação for atividade menosprezada pelos governantes e professor for considerada atividade destinada à complementação de renda, ou seja, “bico”.