Rittes de Quinta | A lista e a Miséria

Já sabemos que brasileiros não gostam de ler, então, falar de livros pode parecer uma perda de tempo. Mas, felizmente, muita gente ainda gosta e, alguns, até sabem escapar das armadilhas das listas dos mais vendidos. O que acontece com a leitura no Brasil é a mesma coisa que acontece com todo mundo que não tem intimidade com determinadas práticas ou objetos.

Por exemplo, se um estrangeiro quiser beber uma caipirinha e pesquisar na Internet como se faz, consegue reproduzir com os ingredientes que encontrar em seu país um drinque quase igual. Mas, quem vai dizer para ele que esta ou aquela cachaça seria mais indicada? Ou que nosso drinque maior só deve aceitar um limão galego como base (taiti jamais!)? Que não se deve retirar a casca do limão ou só machucar com o pilão que, aliás, deve ser de madeira?

Pois é! Quem não possui determinada cultura acaba tendo que apelar para indicadores genéricos, quase sempre estabelecidos pela média. Assim, listas de livros mais vendidos se transformam em base para um consumo pontual, até mesmo na hora de se presentear alguém. Mas, no nosso caso, isso nem é o pior.

Faz tempo que a lista dos best-sellers brasileiros se reveza entre pornografia soft, religião, misticismo, bobagens adolescentes e a famigerada autoajuda. Quase sempre com títulos de baixa qualidade e escritos por “ghost writers”. Claro que isso reflete o rebaixamento cultural e a falta de educação cada vez mais presentes em nosso país, mas diz muita coisa sobre a maior miséria que temos, a intelectual.

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Fontes de catuaba e funks em festas da “elite” comprovam que já não há a necessária e saudável separação entre cultura popular e cultura clássica. As ridículas (e quase cômicas) sobrancelhas definitivas ou “com design”, assim como as roupas de oncinha, provam que uma estética grosseira, de mau gosto, se estabeleceu como “moda”, mostrando a falta de capacidade crítica da maioria.

Quando defendemos maiores índices de leitura para o nosso país, na verdade, estamos querendo que quase todas as pessoas minimamente inteligentes tenham condições de enxergar isso e muito mais. E não pensem que esta é uma postura iluminista, de arrogância intelectual ou antidemocrática. É apenas necessária, no atual panorama brasileiro.

Se a lista dos mais vendidos serve de modelo para muitas pessoas, porque os intelectuais não poderiam ser, eles mesmos, os modelos? Só resta resolver o problema do encolhimento e do silêncio desses mesmos intelectuais diante da barbárie diária. Mas, isso é um outro problema, talvez mais complicado de ser resolvido.

Pessoas com altos níveis de leitura são mais articuladas, falam melhor, pensam melhor e são naturalmente críticas. Se, para isso, aqueles que leem tiverem que ser o farol, a luz no fim do túnel ou simplesmente um modelo a ser seguido, que seja. Por isso, faça a sua parte: distribua bons livros, estimule a leitura, fale sobre livros e contamine o maior número de pessoas. Só assim conseguiremos construir um país melhor.