Talco de Vidro | Quintanilla volta a expor a humanidade em seu lado mais visceral e violento

Marcello Quintanilha e seu Tungstênio com certeza o colocam entre os melhores contadores de história dos quadrinhos nacionais, e Talco de Vidro só prova que sua capacidade de transformar pequenas narrativas em grandes histórias é algo maior ainda.

Sim, Talco de Vidro é muito menor que sua obra anterior, ainda que em termos estéticos e narrativos seja um exercício muito mais complexo e maduro. Um estudo de personagem que mergulha fundo nessa dentista Rosângela e não esconde os cantos escuros de sua alma.

Uma história sobre uma pessoa comum, com dores, desejos, dúvidas e frustrações, que ruma para um final que não tem outro jeito a não ser beirar o trágico, já que Rosângela, simplesmente não consegue conviver com ela mesma. Pior ainda, uma personagem que aos poucos vai sendo esmagada pela sociedade que a rodeia. Mas tudo isso para alcançar o retrato de um mundo vazio e supérfluo.

Vivendo em uma classe média invejosa, que acha estar vivendo a justiça, mas parece empenhada em diminuir todos ao seu redor. Rosângela então é movida pela dor de enxergar a felicidade no sorriso da prima, menos abastada, de uma família mais simples e “sem razão para estar feliz”. É esse o ponto de partido para a protagonista então se perder dentro dessa necessidade de competir com a prima, ainda que isso signifique destruir tudo aquilo que ela e sua família construíram.

Mas o grande espetáculo fica “nas mãos” de Quintanilha e uma narração que mistura três narradores quase independentes dentro da cabeça de Rosângela. Um texto que dialoga com seus trejeitos, se contradiz, reclama e discute toda ação. Um narrador que não tem o menor receio de julgar as ações da personagem, e isso cria um quadro complexo e desafiador.

Talco de Vidro HQ

Uma espécie de fluxo de pensamento que parece entrar em sintonia perfeita com os diálogos que mergulham completamente na realidade e que poderiam estar em qualquer esquina ou cidade do Brasil. Uma segurança narrativa que dá espaço tanto para a sensibilidade da personagem, quanto ainda para passagens incríveis como quando a personagem usa drogas e mergulha em um estado de torpor que carrega o leitor junto.

Quintanilha ainda mais uma vez repete um visual que passeia pelos planos detalhes e cria um mosaico de impressões, com uma vocação para o retrato, independente da beleza que busca em seus personagens. É incrível com esse pé no real cria uma aproximação com o lado de cá da HQ, onde o mediano e atá a feiura são o comum, e o desenhista nem por um segundo foge disso. Nem por um segundo a tal prima é um exemplo de beleza, assim como Rosângela nem de perto transita na falta de beleza, e encontrar um razão para sua infelicidade dentro desses fatores é que mais desafia o leitor.

Um retrato doloroso sobre uma sociedade que está sempre infeliz, mesmo sem perceber que tem tudo. Um olhar violento e crítico sobre a impressão de que o dinheiro e o status podem comprar a felicidade.

Já o título da obra, assim como Tungstênio, fica à cargo do leitor imaginar uma explicação para que duas coisas tão dispares possam viver juntas. Com a pureza e a leveza do talco se tornando algo tão violento e agressivo caso fosse feito de vidro. Sobre como a felicidade, a riqueza e a impressão de que tudo está tão bem, possa ser envenenado pela inveja e torne tudo visceral e perigoso. Mas essa é só a minha impressão, você que fique com a sua.

O crítico leu um exemplar cedido pela Tatoomics
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Talco de Vidro Book Cover Talco de Vidro
Marcello Quintanilha
Veneta
2015
160 páginas

Rosângela é uma dentista bem sucedida, com uma família perfeita e um marido rico e perfeito, mas tudo isso pode se tornar uma tortura diante de uma visceral e violenta inveja que vai tomando sua vida. Primeira HQ de Marcello Quintanilha depois do sucesso Tungstênio e mais uma vez em busca do lado mais sombrio e inesperado do ser humano.