Tungstênio | Um conto urbano, duro e todo entrelaçado

*esse texto é um oferecimento de Tattomics

Então você acaba de ler Tungstênio, obra de Marcelo Quintanilha, e tem a impressão de ter visto uma espécie de filme, daqueles cheios de personagens que se entrelaçam em uma trama que surpreende ao conectá-los. Mas mais do que isso, se pergunta: Por que Tungstênio?

E logo de cara, umas das primeiras coisas que você descobre sobre esse elemento químico é que ele não é encontrado na natureza de modo puro, mas somente combinado com outros elementos. Nas páginas da HQ, tudo aquilo também não é algo singular, mas sim o encontro de vários personagens urbanos da ensolarada Salvador. Quatro caminhos que se cruzam e criam uma história maior que eles. Um velho militar aposentado, um traficantizinho qualquer, um policial e ainda sua esposa.

Hábil e consistente, Quintanilha apresenta esses quatro pilares de sua história sem aparentemente cruzá-los entre si, mas a cada passo da história, o leitor descobre onde esse encontro pode chegar. De uma dupla de caras pescando com explosivos, até a aceitação do amor, passando pela violência de seus atos e da possibilidade de segundas chances. Tudo de modo urbano, acelerado e visceral.

O Tungstênio é ainda um dos metais mais fortes da tabela periódica, com o mais alto ponto de fusão, e é exatamente essa rigidez que pode ser encontrada na HQ. Um trabalho duro e preciso, sem aparas e que ainda surge como uma pedrada no peito do leitor, não por nenhuma grande reviravolta ou coisa do gênero, mas sim pelos caminhos de seus personagens, todos levados aos extremos de suas capacidades físicas ou mentais, mas que sobre tudo isso, nunca se deixam quebrar. Personagens tão reais que parecem vivos, como se Quintanilha apenas estivesse fazendo um rascunho do mundo real.

E esse mundo, assim como o elemento que dá nome à HQ, vem sem cores, meio acinzentado diante das várias possibilidades e verdades. Mas mais do que isso, vem de um domínio de linguagem incrível, que extrapola o cinematográfico e não deixa seu leitor respirar. É maior que um filme, já que chega mais longe que isso, mesclando os vários ládos desse mosáico à partir dos acontecimentos da linha de tempo estabelecida pela trama, assim como fragmentos de passado e uma narração que parece conversar com o personagem. Como se quisesse entrar dentro de seu cérebro para expor todos seus segredos para o leitor.

Tungstênio

Tungstênio ainda mostra um trabalho incrível de desenhar a realidade, seus personagens parecem retratos de pessoas reais, seus cenários parecem colocar Quintanilha de frente para os locais enquanto esboçava sua HQ. O autor ainda dá um show de movimentação, seus quadrinhos parecem correr pelas páginas, seja em um plano aberto ou no incrível trabalho com planos detalhes.

Uma agilidade tanto visual quanto narrativa que beira um fluxo de pensamento que aponta para todos os lugares enquanto prepara o terreno para uma explosão. E como não poderia deixa de ser, o próprio tungstênio é um elemento usado para criar explosivos, talvez até o daques caras que enchiam o barquinho de peixes e motivaram toda trama, mas mais do que isso, a detonação desses quatro personagens diante de seus limites.

E se no final você ainda fechar a HQ e se pegar pensando nela por um tempo, é justamente por ter em mãos uma das grandes obras da literatura nacional, escrito por já um dos grandes contadores de história do Brasil. Um daqueles que olha para os lados e escreve sobre o mundo ao seu redor, e se no final das contas isso ainda te carrega para uma conclusão inesperada, é porque na vida o que não faltam são conclusões inesperadas.

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Tungstênio Book Cover Tungstênio
Marcelo Quintanilha
Veneta
2014
188

Obra de Marcelo Quintanilha mostra quatro personagens vendo suas vidas se cruzarem diante de uma dupla de caras tentando pescar com explosivos. Um caminho que coloca todos eles, um policial corajoso, um velho militar aposentado, um traficantizinho sem muito rumo e uma esposa descontente, em seus limites de baixo de uma ensolarada e urbana Salvador.