Young Adult

O que é Young Adult?

Certa vez o editor de Ernest Hemmingway lhe disse “se você não usasse tantos palavrões em seus livros, seria um autor young adult”.

É lógico que o adulto leitor vem sempre seguido de uma criança e de um adolescente que passavam horas sobre as páginas dos livros. E do mesmo jeito que os mais novinhos sempre encontraram um porto seguro em um punhado de autores especializados, os jovens igualmente encontravam espaço nas prateleiras. Por isso, não é exagero dizer que a literatura “young adult” existe, mas antes disso os adolescentes sempre estiveram por ai.

Para quem não é familiarizado com a expressão, “Young Adult” é um termo cravado na indústria americana para ter onde encaixar todos aqueles livros que tinham como objetivo serem lidos por essa faixa de idade que saiu da infância e ainda está a espera do momento de se tornar adulta. Um lapso que ultimamente vem sendo ocupado por trilogias e trilogias, e mais trilogias (e até algumas quadrilogias).

Esse sim é um fenômeno recente, e que talvez nada tenha a ver com o “young adult”, ainda que seus focos e detalhes sejam quase sempre os mesmo. Mas esse talvez, mais do que das trilogias, seja um dogma do gênero.

Young Adult

Seja um romance puro, seja um terror (com romance), seja uma ficção científica (com romance), ou até uma fantasia aventuresca medieval (com romance), o quê importa (além do romance) é que essas histórias sejam capitaneadas por um protagonista jovem, com problemas adolescentes e que esteja às portas das responsabilidades da vida adulta. Aquele velho conflito de crescer, mas que aqui sempre ganha uma maquiagem e o permite se tornar apenas a base da trama. Somente parte da engenharia narrativa, mas ao mesmo tempo o grande motivador de seus personagens.

Identidade, bullying, primeiros amores, sexo, depressão, conflitos familiares e mais o que vier da cabeça do autor para servir de estopim para as mudanças de seu personagem “young adult”. Isso enquanto enfrenta dragões e distopias futurísticas, descobre alguma sociedade mágica secreta ou simplesmente se apaixona por uma “criatura das trevas”.

Mas, talvez, isso seja mais antigo do que você pensa.

Onde tudo começou

A primeira vez que se ouviu essa expressão foi no começo do século XX, em um periódico americano, Guardian of Education, que usava os termos “livros para crianças” e “jovens pessoas”. No mesmo lugar o termo evolui para “youg adulthood”, algo como “jovens maturos”. De acordo com o estudo, os “young adults” iam de 14 a 21 anos, ainda que hoje se acredite que essa fatia vá dos 15 aos 29 anos.

De um jeito ou de outro, a necessidade de taxar um subgênero só acontecia naquele momento, pois já se via esse fenômeno ocorrer com certa força. Não baseado em nenhuma ciência exata, mas sim no que hoje se considera “young adult”. Em 1802 já existiam tantos exemplos de livros dentro do gênero que seria difícil ignorá-los.

De certo modo, o francês Alexander Dumas, em 1844, colocou seu jovem marinheiro para se vingar de seus inimigos em O Conde de Monte Cristo, assim como, no mesmo ano, D´Argtanan era só um garoto quando decidiu ir para Paris se tornar um mosqueteiro. Hoje, ambas obras estariam na prateleira dos livros “Young Adult” e Hollywood estaria desesperada para comprar seus direitos e emplacar uma trilogia no cinema.

Três Mosqueteiros

 

Do mesmo modo, nos próprios Estados Unidos, Mark Twain levava seus personagens Tom Sawyer e Hucleberry Finn para um monte de aventuras no final do mesmo século. Assim como na Inglaterra, Charles Dieckens contava a história do órfão Oliver Twist, em 1837, antes mesmo de Dumas. Para terminar com os exemplos práticos, quem viu a animação Mogli, da Disney, talvez não saiba, mas a história é baseada em um livro de 1894 sobre um jovem indiano criado na floresta em O Livro da Selva, escrito pelo indiano (meio inglês) Rudyard Kipling.

Tudo isso só para ficar nos exemplos que acabaram ganhando a posteridade como clássicos da literatura, mas não tenha dúvida que para cada Oliver Twist ou Os Três Mosqueteiros existiam um punhado sem fim de copias baratas e obras desconhecidas que povoaram as mãos dos adolescentes da época.

Young Adult hoje

Pode se dizer sem sombra de dúvidas que, antes de qualquer Harry Potter, ou qualquer outra trilogia que tenha se tornado a obsessão de jovens pelo mundo inteiro, muita gente passou suas adolescências com piratas ou em um lugar chamado Terra Média.

Curiosamente, A Ilha do Tesouro foi lançado em 1883, mas foi seu estilo de narrativa ágil e o modo como criou os esteriótipos de piratas que conhecemos hoje, em parceria com uma “mania bucaneira” que atacou Hollywood no começo do século XX, que tornou o livro de Robert Louis Stevenson uma mania entre jovens da época. E se você hoje conhece o capitão Jack Sparrow é só por causa desse livro “infanto-juvenil”, que sem sombra de dúvidas é um dos primeiros “young adults” massificados por diversas mídias.

E falando em “massificação”, ainda na primeira metade do século, um outro fenômeno “young Adult” tomaria os adolescentes. O Hobbit foi lançando em 1937 por JRR Tolkien e foi o pontapé inicial não só para a “Saga do Anel”, como para um nível incontável de “filhos”.

De qualquer jeito, assim como, ainda hoje, os críticos e especialistas não conseguem aceitar nenhum nível de originalidade ou qualidade quando o assunto é “young adults”, a principal coisa a se fazer sempre foi extirpar qualquer possibilidade de um clássico se tornar clássico enquanto fica na prateleira dos “jovens adultos”. E isso não é nada tão atual assim.

Ilha do Tesouro

Durante os anos 50, Apanhador nos Campos de Centeio (1945) e Senhor das Moscas (1954), obviamente, não foram escritos em busca de um público jovem, principalmente por tratarem de assuntos muito mais delicados que piratas e anéis, mas não há dúvidas que, mais do que qualquer outro exemplo, ambos se tratam de literatura “young adult” como ela hoje é conhecida.

Os dois tratam de jovens em situações maiores que eles, mas que diante desse cenário precisam repensar suas juventudes e aceitar que o fim delas vêm com uma série de decisões que definirão seus futuros. Mas, do mesmo jeito que ambos caíram nas graças dos jovens e adolescentes da época, os especialista da época foram os primeiros a apontar isso como um livro de adulto que ganhava a juventude. Mesmo sem querer, J.D. Salinger e William Golding inauguraram o que é hoje a literatura “young adult” em termos de estética e narrativa, mas nem por isso acabaram reconhecidos como estando dentro desse sub-gênero. Afinal eles eram “bons demais para aquilo”.

Durante os anos 70 e 80 isso ficou mais claro ainda, as prateleiras “young adult” estavam sempre cheias, mas sempre relegados a uma espécie de “popularização nociva”. O gênero então acabou empoeirado e longe dos holofotes, o que, enfim lhes deu espaço para apostar naquilo que os anos 50 tinham ensinado. Mais confortáveis com o material que tinham em mãos e nas possibilidades daquilo, os anos 90 permitiu que uma nova leva de escritores “young adult” tocassem em assuntos mais sensíveis e maduros, o que levou a uma geração de jovens se identificando com esses livros e escritores.

Uma fase que levou diretamente ao quadro atual. Para o bem ou para o mal.

Feiticeiros, Vampiros e Doentes Terminais

Falem o que quiser, mas a inglesa J.K Rowling fez seu Harry Potter crescer com seus leitores, assim como alguns anos antes Meg Cabot tinha encantando meninas em todo o mundo com seu Diário de uma Princesa. Do mesmo jeito que (por pior que seja), Stephenie Mayer e toda sua misoginia arrebatou adolescentes de todo mundo enquanto discutia sexo antes do casamento, triângulos amorosos, uma relação com um pai ausente e uma paixão de infância enquanto coloca sua personagem Bela em meio a vampiros e lobisomens. Ok, esse era seu jeito de atrair a atenção para sua história, e não tenha dúvidas que tenha feito mais bem que mal para o cenário da literário mundial (ainda que tenha feito um mal danado!).

Harry Potter

Crepúsculo, mesmo com todos seus defeitos (e não são poucos!), talvez, tenha inaugurado um “esquema” que até hoje seja o “caminho das pedras” da literatura young adult.

Primeiro aposte em uma trama “multi-tema”, onde vários problemas e situações possam ser discutidos e colocados frente a frente, afinal adolescentes são tão cheios de problemas existenciais, que somente um deles é pouco para tamanha mudança hormonal. Na sequência, o melhor é escorar todo seu estilo em diálogos naturais, daqueles que poderia estar saindo da boca de seus leitores, mesmo que isso diminua a qualidade final de seu texto.

Para completar isso tudo, comece suas obras de modo intrigante jogue todas suas fichas em uma grande reviravolta no meio e arrume um final memorável. Na maioria das vezes, esse final levará o leitor até a livraria para comprar o segundo capítulo dessa saga (e lembrem que Tolkien já fez isso lá atrás no primeiro Senhor dos Anéis!), mas quem não tiver uma continuação, que pelo menos faça questão de deixar seus leitores pensando nele até pelo menos abrir as páginas de um próximo livro.

Nessa mesma esteira, anda John Green e mais um monte de autores “young adults” que preferiram o caminho menos fantástico, com dramas reais, doenças terminais e corações partidos. E não fizeram miséria em termos de vendas de livros nos últimos anos.

Só o próprio Green, com seu maior sucesso A Culpa é das Estrelas, permaneceu durante 118 semanas entre os mais vendidos do NY Times, assim como, em 2014, no Brasil foi o segundo livro mais vendido do ano, com quase 650 mil cópias saindo das livrarias. O mesmo autor ainda emplacou mais dois livros nas mesmas listas, Cidades de Papel permaneceu por 104 semana na mesma lista, enquanto seu primeiro livro, Quem é você, Alaska? ficou as mesma 118 semanas. No Brasil o livro de estreia dele foi o quinto mais vendido do ano passado, enquanto o outro, o sétimo, com ambos ultrapassando a marca dos 150 mil livros vendidos.

Mas de onde será que saíram tantos jovens adultos assim? E a resposta mais simples seria: de nenhum lugar. De acordo com a Bowker Market Reserch, 55% das vendas de livros “young adult”, na verdade, são de “adults”, com 28% desse número ainda sendo de leitores entre 33 e 44 anos. Afinal, talvez um adulto leitor não seja precedido de um adolescente cheio de livros, mas sim dele próprio ainda ser um jovem apaixonado por boa (ou má) leitura.